Chiaroscuro em Montreal


Estou eu em casa, em plena segunda feira de Carnaval, dia chuvoso sem muitas opções. Semana passada, pensando que seria uma boa piada, brinquei com os colegas que este Carnaval seria muito agitado e eu ainda não havia decido qual livro eu leria durante o feriado. Cumprindo minha profecia, cá estou eu lendo um livro de composição e design em fotografia. Quem diria, estão pensando meus amigos.

Especificamente, estou lendo sobre a escola de design do século 20, fundamentada na Alemanha de 1920, chamada Bauhaus, localizada em Dessau. Esta escola de arte experimental baseava-se no conceito de contraste. Quando falamos do contraste entre claro e escuro, falamos do chiaroscuro que é o título deste post.Contraste é o resultado de uma comparação onde elementos usados para aferição se encontram em extremos distintos do espectro. Claro e escuro, bonito e feio, reta e círculo, liso e rugoso, áspero e suave, em foco e fora de foco são exemplos de grande contraste. Um círculo e uma elipse mostram pouco contraste.

Se o contraste é uma forma de expressão artística, criando tensão e despertando o interesse, na vida a gente também tem uma relação confusa com o contraste. Sem o contraste não teríamos a noção do belo, do nobre, do excelente, do surpreendente. Onde tudo é parecido, tudo se torna monótono. Por outro lado, sem o contraste não teríamos a pobreza. Às vezes difícil de perceber, mas pobre é quem tem menos que nós e rico é quem tem mais. Ninguém se considera rico porque todos olhamos para os que tem mais (e sempre existe alguém com mais) e achamos que temos pouco. Os que tem menos que nós olham para nós e nos consideram afortunados. É o contraste que separa os ricos dos pobres.

Nestes belos apartamentos em Montreal, moram pessoas que nós consideramos ricos, pelo contraste que vemos entre estes belos palacetes e os apartamentos de arquitetura pobre que vemos por aqui. Para quem mora lá, não há nada demais. É o contraste é que dita quem é quem.

O contraste, pelo contraste, não é bom nem é ruim. Quando é muito ele incomoda. Seja ele contraste de valores, de riqueza ou de cores. A poluição visual incomoda justamente porque tem contraste demais. A foto acima, cheia de cores diferentes, um carro estacionado enquanto um homem espera no sinal carregando com dificuldades um bebê, placas amarelas com letras vermelhas, transmite uma tensão visual. É simplesmente feia.

Já o contraste mais controlado desta outra foto, torna a foto interessante.

O contraste é algo que gostamos quando nos percebemos no extremo bom do contraste. Se o contraste é que sua nota na escola é muito melhor que as dos demais, ficamos orgulhosos em dizer que tiramos a maior nota. Isto até serve de justificativa quando todo mundo foi mal, mas você não foi tão mal assim.

Chamamos de paradoxo o contraste que não conseguimos explicar. O que um prédio tão bonito, arredondado, cercado de belas árvores no outono faz no meio de contâineres? Ficamos olhando, tentando decifrar esta cena contrastante. É paradoxal.

Os contrastes sempre vão existir, uma vez que o comunismo já se foi. Temos que aprender a lidar com ele de uma forma construtiva, identificando os contrastes que precisam ser eliminados e os que precisam ser incentivados. Enquanto eu não tenho a resposta, vou procurando apurar meu olhar e ver o belo que há nos contrastes que a vida nos apresenta.

Contrastando com meus outros posts, todas estas fotos foram todas feitas com uma Canon.

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