Um Tsunami de dores


Assistimos, esta semana, a mais um episódio da saga “Homem X Planeta”. Ondas gigantes, resultantes do maior terremoto na história do Japão mataram centenas de pessoas, destruíram casas, empresas e cidades, e chocaram milhões de pessoas. É algo triste e que desperta questões diversas. Sem a pretensão de responder satisfatoriamente nenhuma das questões, quero pensar e discutir algumas das respostas. Frequentemente fazer a pergunta certa é mais importante do que ter a resposta.

Chamamos de empatia a capacidade de entendermos os sentimentos alheios. Damos um nome bonito para um comportamento raro hoje em dia. Na cultura individualista que construímos temos dificuldade de lidar com a dor de outras pessoas. A consequência é que não sabemos lidar com a nossa também. Diante do sofrimento, precisamos de empatia. Para ter empatia é preciso amar. Para amar é preciso vencer o individualismo.

 É mais fácil ser empático com a dor das pessoas mais próximas ou mais queridas. A morte de uma centena de pessoas em um país distante não nos incomoda, mas a perda de um ente próximo nos devasta. Ponto para o individualismo.

A dor está presente ao nosso redor, não temos como eliminá-la. Lutamos por suprimí-la, através de mecanismos de defesa e isolamento que nos permitem viver com a consciência tranquila diante até mesmo da injustiça. Aprendemos a evitar os locais da cidade onde a vizinhança não é agradável ou bela, afinal, se não vejo, não sinto. Aprendemos a ter respostas rápidas aos pedintes que vem em nossa casa. Agora a pouco um senhor, aparentando um pouco mais de idade que eu, me ofereceu serviços gerais ao preço de algum alimento. Certamente eu poderia ajudar com algo, mas foi mais seguro e fácil dizer que hoje eu não podia ajudar.

O grande problema que temos quando tentamos evitar a dor é que não é possível escolher o sentimento a ser evitado. Conseguimos evitar a dor, e junto eliminamos o envolvimento, a compaixão e o amor. Conseguimos apenas nos tornar insensíveis. E, uma vez insensíveis, nos tornamos capazes de esmiuçar e explicar a dor. Não dá para evitar as sombras e ter um céu ensolarado ao mesmo tempo.

Na tentativa de explicar o mundo, de entender o trascendente, de nos sentir senhores do nosso universo, criamos a teologia. Já não compro a idéia de que a teologia nos ajuda a conhecer a Deus há muito tempo. Sendo Deus um Deus pessoal, só é possível conhecê-lo pela convivência, não pelo escrutínio. “Abraão andou com Deus e foi chamado amigo de Deus”. Mas a teologia quer explicar pela teoria, e para isto, precisa achar causas, culpados, responsáveis. Precisa sistematizar os fatos, as pessoas, os sentimentos. Precisa explicar Deus. Para ter certeza de que Deus não vai sair do seu domínio, eles até constroem uma casa para ele. Será que isto é conhecer a Deus?

Voltando ao nosso ponto inicial, o terremoto japonês. As tragédias trazem à tona o dilema complexo da teologia: como um Deus bom permite algo mal acontecer? Para resolver este paradoxo os teólogos apontam o dedo e acrescentam à dor de quem já está sofrendo um pacote de culpa, tentando transformar as vítimas em cúmplices de sua própria tragédia. A isto damos o nome de antipatia, que é o antônimo de empatia. Gente religiosa é antipática na mesma medida em que tentam definir na vida alheia causas e consequências. E se especializam em fazer isto quando há alguém sofrendo. Levam dor a quem precisa de amor. Esta é uma canoa furada.

Já as pessoas que conhecem a Deus agem de outra forma. Elas, por serem discípulas, querem imitar seu senhor. E Jesus deu-nos o exemplo de como lidar com a dor alheia. Quando confrontado com a dor de um cego de nascença, os seguidores de Jesus pediram uma explicação, que lhes foi negada. Em seu lugar, Jesus mostrou compaixão. E o mesmo ocorreu diante de uma mulher condenada e uma multidão faminta. Para explicar uma tragédia contemporânea, Jesus foi claro em isentar as vítimas de sua culpa. Ele trouxe um fardo leve, um jugo suave. Jesus era simpático.

Diz-se que Billy Graham, numa entrevista após o 11 de setembro, foi questionado sobre onde estaria Deus naquele dia doloroso. Respondeu, saibamente, que Deus estava nos bombeiros que estavam lutando para salvar vidas. A dor é algo inexplicável, mas demanda atitude. Alguns tentam responder e acabam adicionando dor aos que já estão sofrendo. Melhor que trazer explicações, é levar ajuda. Se você tem fé, mostre-a com boas obras, não com discursos secos. Como disse Jung Mo Sung (

) no twitter: “No pganismo, Deuses aparecem no destino e na natureza. Na Bíblia [ele se apresenta] na ética, solidariedade e amor. Há gente com saudade do paganismo”.

Quer ajudar alguém que está sofrendo, não leve explicações. Leve um sorriso e dê um abraço.

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