A Dor da Separação


Estamos a meio caminho entre Belo Horizonte e Miami, 3h da madrugada. Continuo não conseguindo dormir nas cadeiras da American Airlines e para me fazer companhia há uma criança com a mesma dificuldade duas fileiras a frente. Ela porém ainda está na dúvida se chora de verdade ou fica só no ensaio. Noite longa.

Mais longa do que a noite parece ser a distância que passaremos a ter entre nós e nossas famílias, amigos e queridos. Os meninos já sentiram isto e a despedida foi bastante emocionada.

Na primeira vez que deixamos Belo Horizonte, rumamos a São Paulo. Éramos apenas eu e a Carina e nossa mudança completa não ocupou metade de um caminhãozinho 608. A distância era menor, uma hora de avião. A despedida foi simples, quase nenhuma. Lembro que o Rodrigo foi me ajudar a retirar as luminárias que foram depois aproveitadas no apartamento alugado em Pinheiros. Saímos numa manhã ensolarada em nosso Fiat Tipo, que tinha ar condicionado, rumo à cidade grande.

Paramos na estação Tietê assim que chegamos a São Paulo, para comprar um Guia 4 Rodas e já comprar a passagem de volta da Carina, para o dia seguinte. Ela tinha vindo só me acompanhar na viagem. Eu ainda ia esperar 2 meses até que ela viesse se juntar a mim. Chegamos ao hotel e eu ainda me lembro da sensação de olhar pela janela e pensar “estamos progredindo”. Não demorou 1 hora e recebemos a visita da Alda Márcia, que foi presença constante em nossa casa pelos 5 anos seguintes.

De lá para cá muita coisa mudou. Desde então já estamos na segunda difícil mudança. Quando voltamos a Belo Horizonte deixamos parte de nosso coração com os amigos que nos acolheram, de nós cuidaram, conosco caminharam em momentos difíceis e alegres que vivemos em São Paulo. Criamos laços fortes, daqueles que não se rompem. Agora partimos de novo e tirar o bandaid, como diz minha amiga Lika, foi mais difícil. Talvez o processo sendo mais pensado, mais lento, tenha feito a partida mais sofrida. Foram muitas despedidas: dos colegas da escola, dos colegas do trabalho, da família, da igreja, dos amigos, da casa e até do torresmo. Enquanto não chegamos ao aeroporto, porém, a ansiedade e a adrenalina estavam suplantando a dor. De repente a hora chegou e doeu ver nos olhos marejados dos meninos a saudade antecipada, ouvir os pedidos para cancelar tudo e responder aos questionamentos de última hora. Talvez ter que dar 20 abraços antes de embarcar tenha tornado tudo mais emocionante, mais pesado.

Claro que se não tivesse ninguém lá teria sido muito pior. Se sentir amado consola. Talvez a dor venha do paradoxo estampado no olhar de cada um. Se por um lado se alegravam com a oportunidade que se nos apresentou, por outro sentiam o preço que todos pagamos por aproveitá-la. Talvez a dor venha da percepção de quão especial cada um ali é, de quão importante são em nossas vidas e da tamanha falta que cada um fará. Enquanto novas risadas não vierem se somar às nossas memórias, permanecerá viva a marca da despedida. Despedida tem gosto ruim.

Lembro que eu estava despedindo os pintores de nossa nova casa em Belo Horizonte quando chegaram o Lucas e a Ana Paula para nos visitar. Arrumamos alguns colchões no chão para passarmos o fim de semana juntos na casa nova. Ainda bem que eles já tem passagens para nos ver no próximo mês. Que venham as visitas!

E o menino da fila em frente resolveu que vai mesmo é chorar. Sábia decisão.

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